Wihta

Hām » Teologia » Wihta


(Clique no áudio para ouvir a pronúncia reconstruída)

Significado do nome: criatura, ser, coisa, denotando algum ente animado, mesmo que para pessoas modernas aparentemente não o seja.

Outros nomes:wihte (antigo baixo francônio), vættir (nórdico antigo), waíhtōs (gótico), wight (inglês moderno), Wichte (alto alemão moderno), wichten (holandês moderno) vindos do proto-germânico *wihtiz, "essência, objeto". Relacionados ao huldufólk na Islândia moderna.

Função: Um wiht pode ser qualquer tipo de animal, árvore, pedra, rio, ancestrais, etc. Aplica-se a todos os seres vivos ao nosso redor, visíveis ou invisíveis, e, embora seja comumente associado a "espírito", na verdade refere-se a "criaturas", ou se preferir evitar a noção criacionista abraâmica, "entes",  termo comum na filosofia que designa qualquer coisa que exista ou manifeste-se na realidade, mesmo que não seja perceptível a todos os sentidos. Pode referir-se desde o menor dos seres até um dos ēse ou divindades superiores. O conceito é encontrado não apenas no mundo germânico, mas em religiões nativas de uma maneira ou de outra. Na antropologia moderna, o termo "personalidade não-humana" (other-than-human person) refere-se ao costume de diversos povos indígenas e tribais que ainda experienciam suas formas de religiosidade e visão de mundo nativas de tratar seres naturais aparentemente inanimados, ao menos para pessoas ocidentais e modernas, como vivos.

A ideia chave aqui é que na mentalidade não cristã matéria e espírito não são duas realidades separadas, mas uma e a mesma coisa. Assim, elementos naturais que se destacam, como pedras de formato singular, árvores antigas e imponentes, lagos, fontes, rios, ou qualquer lugar que possa ser considerado dramático, de destaque, ou sublimemente belo pode ser considerado um wiht poderoso (isto é, que possui muita mæġen), o qual pode, se forem feitas as devidas ofertas, influenciar a vida humana. Ideias similares, no contexto europeu, foram encontradas nos seidas dos povos sami, povos indígenas do norte europeu, o qual costumava deixar ofertas para pedras e montes, dos quais muitos desses locais podem ser encontrados ainda hoje.

 
 (na Finlândia, o Luujärvi seita)

Mas, apesar de wihta poder se referir a elementos materiais que englobam também um monte ou montanha ou paisagem natural inteira (quando são considerados ēotenas, gigantes), wihta pode ser usado para se referir a uma classe de seres ctônicos ou telúricos, isto é, seres divinos ou semi-divinos associados ao submundo, como ylfe e dweorgas, elfos e anões. Muito comumente os wihta também são entendidos como antigos e lendários habitantes de um determinado local, embora, neste caso, não esteja totalmente clara a distinção entre um destes e um ælf (elfo), assim como não é clara a distinção entre um ælf e um ancestral. O que separa as várias categorias de wihta é seu domínio de influência ou mæġen.

Um wiht não se encaixa nos padrões de moralidade modernos. Ele não é bom ou mal; ele pode ou não querer desenvolver laços de reciprocidade com os humanos através do ciclo de presentes, pode causar benefícios ou prejuízos aos humanos, ou pode ainda manter-se simplesmente distante de contato. Tanto em folclore como em registros escritos eles são apresentados como seres aos quais aos quais ofertas e sacrifícios podem ser feitos em busca de fertilidade, prosperidade, cura, regeneração, e comumente vingam-se ou causam azar quando são desrespeitados. Ainda em folclore, não é raro vê-los como protetores locais, e especialmente na Islândia, locais de morada de huldufólk ou elfos são comumente protegidos, dando-se tempo para que eles mudem-se antes que mudanças sejam feitas na geografia do terreno local.

Todos esses seres comumente associados ao mundo fora do lar podem ser chamados de landwihta (landvættir, em nórdico antigo). Todavia, um wiht poderia ligar-se a uma família, lar e seu terreno, protegendo-o, desenvolvendo uma relação de amizade, e, embora esse wiht pudesse ser retratado como sistemático caso as devidas ofertas não lhe fossem deixadas, fazendo desparecer ou derrubando objetos, e jamais aceitando ofertas de roupas, o que lhes ofenderia profundamente, eles poderiam trabalhar de maneira árdua pela propriedade e o bem-estar da comunidade que nela vive. Como wihta do lar esses seres são conhecidos como cōfgodas (singular cōfgod) ou "deuses das habitações", denotando sua importância na mentalidade anglo-saxã antiga. O brownie e o hob, presentes principalmente no folclore da média Inglaterra e norte, e especialmente próximo à fronteira com a Escócia, seriam folcloricamente as formas mais conhecidas desses seres. Os hobs foram descritos como homens pequenos, barbudos e franzinos. No norte da Grã-Bretanha, o hob foi visto como um espírito amável, mas malicioso, útil para as pessoas locais que precisam de cura. Um hob famoso chamado Hobthrust morava perto da Baía de Runswick em um "buraco de hob", e foi dito ser capaz de curar a tossideira crônica.

Iconografia: Pedras, rios, árvores, ou qualquer elemento natural ou feito por humanos, como pequenas casas onde os wihta habitam ou ídolos os representando, tanto fora como dentro do lar, no qual ofertas sejam deixadas como forma de culto e reverência.

Fontes atestadas: Nos Códigos Legais do Rei Ecgberht de Wessex são mencionados no começo do século IX, portanto no segundo século de conversão oficial dos anglo-saxões, práticas pagãs que ainda estavam sendo combatidas: Stānweorþung, o culto de pedras,  Trēowweorþung, o culto de árvores e o Willweorþung, o culto de fontes de água. N'As Leis do Rei Cnut, que reinou no começo do século XI, encontra-se uma proibição expressa do paganismo, e muito peculiar é sua definição: 

“E proibimos fervorosamente todo paganismo: o paganismo é que os homens adoram ídolos; Ou seja, adoram deuses pagãos, e a Sol ou o Lua, fogo ou rios, fontes de água ou pedras, ou árvores da floresta de qualquer espécie”.

Já na parte islandesa-escandinava do mundo germânico, em uma seção do Hauksbók, há uma condenação episcopal de “mulheres tolas” que deixam comida em rochas e cavernas para alimentar a terra na esperança de serem abençoadas com prosperidade em seus lares.  Uma versão do Livro de Assentamentos (Landnámabók) diz que a lei antiga da Islândia proibia ter uma uma cabeça de dragão equipada na proa de seu barco quando estivesse entrando no porto ou fosse atracar em uma praia, pois isso assustaria os landvættir locais. Na Egils Saga, Egil Skallagrímsson criou uma estaca de maldições para fazer os landvættir da Noruega perderem-se, até que tivessem expulsado o rei Eric e sua esposa. Por fim, na Saga do Rei Olaf Tryggvason na Heimskringla de Snorri Sturluson, o rei Harald Gormsson da Dinamarca tinha um mago que, ao tentar atacar a Islândia, encontrou quatro poderosos landvættir a defendendo, os quais figuram no brasão do país até a atualidade.

Interpretatio Romana: genius loci.

Bīnaman Contemporâneos: podem variar, referindo-se ao folclore local, muitas vezes.

Fontes
Wihta, Larhus Fyrnsida <https://larhusfyrnsida.com/fundamentals/wihta/>
The Wihte, Frankisk Aldsido <http://aldsido.blogspot.com.br/2011/03/wihte.html>
Landvættir (espíritos da terra), Tomte, Nisse, Huldufólk, Heathenry & Liberdade <https://asatrueliberdade.com/2017/07/31/landvaettir-espiritos-da-terra-tomte-nisse-huldufolk/>
“Animism” Revisited: Personhood, Environment, and Relational Epistemology. Nurit Bird‐David <http://lchc.ucsd.edu/mca/Mail/xmcamail.2012_08.dir/pdfFNa83UDbvD.pdf>