Guardião de patrimônio: Þunor Eodorweard

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Postado originalmente em Sundorwīc, por Wōdgār Inguing.
Tradução por Lilian Aguiar, revisão de Seaxdéor.

Esse artigo é uma continuação do meu artigo anterior, Threshold Guardians: Dūrupālas [Guardiões limiares: Dūrupālas], no qual eu estabeleço um culto a guardiões das portas anglo-saxões baseado em exemplos gregos, romanos, francos e do sudeste asiáticos.

Nesse artigo, tentarei extrapolar o culto anglo-saxão associado a proteção de domicílio, usando exemplos de cultos gregos e romanos.


Zeus Herkeios, Ktesios and Kataibates


Na antiga religião grega, Zeus era uma deidade multifacetada com vários atributos e epítetos. De interesse específico, aqui estão três cultos de Zeus diretamente associados à residência [household] e seus limites correspondentes.

O primeiro dos três cultos - o de Zeus Herkeios - está associado ao limite do lar e com a guarda da propriedade ali encontrada. O nome Herkeios da palavra grega antiga, hérkos, que significa "cerca" ou "muro" [1], o que é indicativo do domínio específico da influência associada a esse papel particular do Deus.

De acordo com Homero, cada casa tinha um altar dedicado a Herkeios no pátio que precedia diretamente a casa, ou megaron. Nesse local eram feitas as libações e sacrifícios ao Deus para evocar sua proteção [2]. Como este era um culto ateniense universal, era costume daqueles que viviam na pólis dizer “onde é o seu Zeus Herkeios?” ao pedir um endereço específico [3].

A casa e sua cerca protegiam o homem contra inimigos e outros perigos, mas ela própria precisava da proteção divina. Seu protetor era Zeus, a quem nós nos encontramos aqui em vários papéis bastante diferentes daquele do deus do clima.” [4]

Zeus Herkeios também desempenha um papel na Eneida, pois é sobre o seu altar que Príamo e Polites são mortos pelo filho de Aquiles, Neoptólemo (Pirro). É neste ato que Virgílio tenta ilustrar a natureza selvagem de Neoptolemus, devido à conexão entre o altar e o santuário doméstico [5] [6]. Esta ligação entre o santuário e Herkeios é ainda mais elucidada na Odisseia, onde Fémio reivindica asilo em um altar de Herkeios para escapar de Odisseu que queria matá-lo.

Sair do megaron e sentar-se no altar do grande Zeus Herkeios, um altar feito apropriadamente, onde muitas eram os pernis de bois que Laerte e Odisseu tinham queimado.” [7] [8]

O culto de Zeus Ktesios difere de Herkeios, pois trata especificamente do interior do megaron grego em oposição ao perímetro externo. De acordo com Harpocration, Ktesios vivia na dispensa e sua divindade estava alojada em um recipiente semelhante a uma ânfora chamado kadiskos, que tinha alças duplas coroadas em lã branca [9].

Em suas Orações, Iseu descreve poeticamente as práticas de culto associadas a Ktesios.

Quando Ciron sacrificou a Zeus Ktesios, um sacrifício sobre o qual ele era especialmente sério, ele não admitiu escravos ou não-membros da família. Ele fez tudo sozinho, mas nós compartilhamos este sacrifício e nos unimos a ele no manuseio e posicionamento das vítimas do sacrifício e em fazer as outras coisas. Ele orou para que o deus nos desse saúde e boa 'propriedade', e isso só era natural porque ele era nosso avô.”[10] [11]

As conexões entre Ktesios e a proteção da propriedade podem ser vistas na raiz do nome do Deus, que vem do verbo grego antigo, ktéomai, que significa "ter", "ganhar", "possuir" [12]. O culto de Ktesios foi difundido em todo o mundo helênico - um fato que é apoiado por um equivalente etimológico dórico existente em Zeus Pasios [13].

Em termos de iconografia, Ktesios carecia de uma representação antropomórfica. Como mencionado acima, os kadiskos eram tipicamente representativos de seu culto, embora as imagens serpentínicas também desempenhassem um papel. Em um relevo descoberto em Thespiae, o epíteto de Ktesios é registrado acima da imagem de uma grande serpente, iconografia que foi paralelizada na lararia romana tardia. Acredita-se que o culto à cobra associado ao lar tenha se originado em um período agrário anterior, em que a cobra era vista como um protetor ctônico da dispensa contra vermes e praga [14]




Em Zeus Kataibates encontramos uma divindade com uma função muito específica - uma função que é espelhada por outras divindades do trovão indo-europeias. O título Kataibates significa "aquele que desce" e é uma referência direta ao raio, que foi considerado nos tempos antigos como o impacto resultante de um machado de pedra empunhado por Zeus [15].

Nas ruínas de uma casa em Oinomaos, o altar de Kataibates foi encontrado ao lado de um altar de Herkeios. Altares para Kataibates também foram encontrados em uma casa em Thera e em Tarentum, onde, como o exemplo acima, eles estão no pátio diante do megaron ao lado de Herkeios [16]. Aqui foram feitos sacrifícios ao Deus para impedir a queda de raios e, de acordo com Chambers Guthrie, pode ter funcionado como um antigo para-raios [17].

Na religião eslava e germânica, vemos paralelos a essa função apotropaica. Na cultura eslava, Gromoviti znaci ou "marcas do trovão" são considerados por alguns estudiosos como um antigo símbolo de Perun que, quando gravados em vigas ou no limiar [threshold] da casa, protegem contra raios [18]

Nós vemos um tema semelhante aparecer na cultura germânica em que algumas espécies de suculentas [houseleeks] eram plantadas nos telhados das casas para proteger contra a queda de raios. Na Inglaterra anglo-saxã, essas plantas eram chamadas de Þunorwyrt, ou "planta-do-Trovão", [19] sugerindo um possível paralelo às funções tanto de Kataibates quanto de Perun.


Divindades romanas das fronteiras


Em Júpiter, nos deparamos com vários epítetos associados a guarda e proteção, incluindo Tutator "diretor", Vindex "protetor", Serenator, “aquele que clareia o céu ", e Praestes "protetor". [20]

De particular interesse é o epíteto Terminalus, associando Júpiter ao Deus das fronteiras, Terminus. De acordo com Dionísio de Halicarnasso, Numa ordenou que todos os cidadãos romanos marcassem seus limites com pedras sagradas consagradas a Júpiter Terminalus [21]. Nessas pedras fronteiriças que os sacrifícios eram feitos a Terminalus a cada ano no festival de Terminalia.

Em seu De Condicionibus Agrorum, Siculus Flaccus dá um relato do ritual usado para santificar a pedra limite de Terminus, um ritual que consistia em colocar cinzas, ossos e sangue de uma vítima de sacrifício, junto com colheitas, vinho e favo de mel em um buraco onde as propriedades convergiram. O buraco era então selado quando a pedra limite é empurrada para dentro [22].

Na Terminalia, as famílias decoravam o seu lado do marco de fronteira com guirlandas e faziam oferendas de colheitas, favo de mel e vinho. O sangue de um cordeiro ou porco sacrificado seria derramado sobre o marcador, um ato que era seguido por festas comunais e pelo canto de hinos [23].

Woodard explica brevemente as origens do culto de Terminus em seu trabalho, o Indo-European Sacred Space: Vedic and Roman Cult.

Esta observação levanta imediatamente a questão de por que uma pedra sagrada de fertilidade deve ser associado com limites do todo. Pode-se imaginar que o desenvolvimento seria totalmente secundário. Poder-se-ia esperar que os pastores nômades proto-indo-europeus não precisassem de pedras limítrofes. Nas sedentárias culturas filhas indo-europeias, como a de Roma, as pedras fornecem um meio efetivo para marcar os limites, e a pedra sagrada arcaica pode naturalmente ser assimilada a tais marcadores. De fato, Terminus nem sempre é uma pedra, mas às vezes é identificado com um toco que serve para demarcar propriedades adjacentes (veja Ovid, Fast. 2.641–642; Tibullus 1.1.1). ”[24]

Altar decorado com um baixo-relevo representando o deus Silvan
Embora Terminus seja provavelmente o mais conhecido dos deuses fronteiriços romanos e tenha tido o culto mais desenvolvido, também podemos olhar para Silvanus para reforçar nossos esforços reconstrutivos. De acordo com Dolabella, Silvanus era o Deus responsável por erigir os primeiros marcadores de limite, posicionando-o como uma divindade associada ao delineamento do espaço coextensivo. Ele também afirma em seu Ex Libris Dolabellae, que cada propriedade possuía três Silvani de proteção. Silvanus Domesticus "da casa", Silvanus Agrestis "da fazenda", e Silvanus Orientalis "do limite da propriedade", correspondem intimamente aos Zeuses tripartidos do antigo culto da casa helênica [25]. Em termos de sacrifícios, Silvani recebia oferendas de uvas, leite, espigas, carne, vinho e porcos [26] [27].


Uma Divindade de Fronteira Específica do Fyrnsidu


Com base em informações coletadas de fontes gregas e romanas, devemos agora ser capazes de reconstruir um comparável culto domiciliar baseado na estrutura linguística e cultural do Fyrnsidu.

O primeiro desafio que nos é apresentado é a enorme multiplicidade de deidades que podemos reconstruir dos cultos listados acima. Para simplificar, concentraremos nossos esforços em uma divindade singular que preside a propriedade in toto, abrangendo elementos de Zeus tripartido, Terminus/Jupiter Terminalis e Silvanus tripartido.

A divindade mais apropriada para esse papel provavelmente seria Þunor, devido aos óbvios paralelos entre ele e Zeus. O correspondente nórdico de Þunor, Þórr era um abençoador e protetor, uma função compartilhada por Zeus e Júpiter em vários de seus epítetos.

Em termos de fornecer um nome para esta divindade distinta, temos uma variedade de combinações em Inglês Antigo disponíveis - Þunor Eodorweard Guardião da cerca/arredores [Fence/Hedge Ward], Þunor Hūsbonda Mestre da Casa [Master of the House], ou algo com esse efeito, mais consistente com os epítetos atribuídos a Silvanus e Zeus [*].

A localização do altar, se seguirmos o exemplo greco-romano, provavelmente seria colocado ao ar livre no quintal, próximo à cerca ou ao limite da propriedade. Presentes de favo de mel, libação, grãos ou cinzas de uma oferenda queimada podem ser dados periodicamente neste local - um ato que seria repetido em intervalos regulares para assegurar a proteção do recinto doméstico.

Dado que o culto de Terminus era anicônico, imagens associadas podem não ser necessárias. Se você optar por usar a iconografia, a cobra pode fazer uma boa representação zoomórfica, especialmente considerando que a cobra desempenhou um papel proeminente no culto da casa grega e romana. Iconografia associada a divindades do trovão indo-europeu, como o raio, martelo ou machado, pode ser usada, especialmente se representações antropomórficas forem empregadas. Silvanus também é regularmente representado ao lado de um companheiro canino, um detalhe que se presta muito bem a um culto focado em proteção e vigilância.

Se alguém fosse estabelecer um dia específico para celebração deste culto, a data de Terminalia (23 de fevereiro) poderia ser usada como uma diretriz.




Notas:

[1]https://en.m.wiktionary.org/w/index.php?title=herkogamy&oldid=43964216
[2] Nilsson, Martin P. Greek Popular Religion.
[3] Mikalson, Jon D. Ancient Greek Religion.
[4] Nilsson, Martin P. Greek Popular Religion.
[5] Anderson, Michael John. The Fall of Troy in Early Greek Poetry and Art.
[6] Virgil. Aeneid 2. 499-500
[7] Odyssey 22.334-6
[8] Dowden, Ken. Zeus.
[9] Harrison, Jane Ellen. Prolegomena to the Study of Greek Religion.
[10] Mikalson, Jon D. Ancient Greek Religion.
[11] Isaeus 8.16
[12]https://en.m.wiktionary.org/w/index.php?title=κτάομαι&oldid=47028907
[13] Nilsson, Martin P. Greek Popular Religion.
[14] http://creadm.solent.ac.uk/custom/rwpainting/ch6/ch.6.6.html
[15] Nilsson, Martin P. Greek Popular Religion.
[16] Nilsson, Martin P. Greek Popular Religion.
[17] Chambers Guthrie, William Keith. The Greeks and Their Gods.
[18] Encyclopedia of Ukraine, vol. 3
[19] Bosworth, Joseph. “An Anglo-Saxon Dictionary Online.” þunor-wyrt. Ed. Thomas Northcote Toller and Others. Comp. Sean Christ and Ondřej Tichý. Faculty of Arts, Charles University in Prague, 21 Mar. 2010. Web. 7 Aug. 2017.
[20] Thulin, Carl. Realencyclopädie der classischen Altertumswissenschaft
[21] Dionysius. Roman Antiquities
[22] Flaccus, Siculus. De Condicionibus Agrorum.
[23] Ovid. Fasti 2. 639-684
[24] Woodard, Roger D. Indo-European Sacred Space: Vedic and Roman Cult.
[25] Dolabella. Ex Libris Dolabellae
[26] Tibullus. II.5.27, 30.
[27] Horace. Epodes II.21-22.
[*] Estes são simplesmente nomes que o Sundorwic Hearth escolheu usar. Para sua prática, você pode decidir escolher um diferente nome ou nomes para este culto particular.