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Página do Lacnunga com parte do encantamento

Tradução de Daniel Seaxdéor

O Nygon wyrta galdor, o Encantamento das Nove Ervas, é um popular encantamento anglo-saxão que foi preservado no manuscrito chamado de Lacnunga, datado do século X.

A tradução aqui foi bastante flexível. Alguns nomes de ervas são incertos, por isso indicaremos as ervas que acreditam referir-se a elas. Em vez de oferecer uma tradução objetiva, optei por uma tradução aberta, deixando indicadas as várias possibilidades de identificação de algumas dessas ervas. Para a tradução foi usada a versão em inglês e o texto original em inglês antigo disponível em Grendon (1909, pgs. 190-195).

O encantamento das nove ervas

Lembre-se, Artemísia[1], o que você revelou,
o que você estabeleceu na grande proclamação.
Você foi chamada Una, a mais antiga das ervas,
você tem poder contra três e contra trinta,
você tem poder contra o veneno e contra a infecção,
você tem poder contra o inimigo repugnante que viaja pela terra.

E você, Tanchagem[2], mãe das ervas,
aberta para o leste, poderosa por dentro.
Sobre você, carruagens rangiam, sobre você rainhas montaram,
sobre você noivas gritaram, sobre você os touros bufaram.
Você resistiu a todos eles, foram esmagados.
Você também resiste ao veneno e à infecção
e ao inimigo repugnante que viaja pela terra.

Agrião-de-canário[3] é o nome dessa erva, cresceu em uma pedra,
ela se levanta contra o veneno, ela ataca contra a dor.
Urtiga[4] ela é chamada, ela ataca contra veneno,
ela expele coisas malignas, ela tira o veneno.
Esta é a erva que lutou contra a serpente,
ela tem poder contra o veneno, ela tem poder contra a infecção,
ela tem poder contra o repugnante que viaja pela terra.
Expulse[5] agora, attorlaðe[6], os venenos maiores,
embora você seja a menor, até que ele[7] seja curado de ambos.

Lembre-se, Camomila[8], o que você revelou,
o que você trouxe ao fim em Alorford,
que nunca um homem deveria perder a vida devido a infecção
depois que a Camomila fosse preparada como alimento.

Esta é a erva chamada Macieira[9]
uma foca enviou isso através da espinha do mar
para o prejuízo do veneno, para outros ser o remédio.
Estas 9 têm força contra nove venenos.

Um verme veio rastejando, ele rasgou um homem em dois
então Wōden pegou nove galhos gloriosos,
ele bateu na cobra, que partiu-se em nove partes separadas.
Ali conseguiram a maçã e o veneno,
que ela nunca pudesse entrar em uma casa.

Tomilho[10] e Erva-doce[11], duas de muita força,
elas foram criadas pelo sábio Senhor,
santo no céu enquanto ele pendia;
ele as criou e enviou para os sete mundos,
para os miseráveis e os afortunados, como uma ajuda para todos.
Ela levanta-se contra a dor, ela luta contra o veneno,
ela auxilia contra 3 e contra 30,
contra a mão do inimigo e contra intrigas nobres,
contra o encantamento de criaturas[12] vis.

Agora, nove ervas têm poder contra nove espíritos malignos,
contra nove venenos e contra nove infecções:
contra o veneno vermelho, contra o imundo veneno,
contra o veneno branco, contra o veneno azul claro
contra o veneno amarelo, contra o veneno verde,
contra o veneno negro, contra o veneno azul,
contra o veneno marrom, contra o veneno carmesim,
contra bolha de verme, contra bolha de água,
contra bolha de espinhos, contra bolha de cardo,
contra bolha de gelo, contra bolha de veneno.

Se algum veneno vier voando pelo leste,
ou algum pelo norte, [ou algum pelo sul,]
ou algum pelo oeste sobre a tribo dos homens,
Cristo levantava-se contra doenças de todo tipo.

Eu sozinho conheço os rios que correm,
ali as nove cobras eles enclausuram;
que todas as ervas possam emergir de suas raízes,
os mares fluem, toda a água salgada,
quando eu golpeio esse veneno pra fora de você.

Losna, tanchagem aberta para o leste, agrião-de-canário, attorlaðe[13], camomila, urtiga, macieira, tomilho e erva-doce, sabão velho; triture as ervas [até deixá-las] em pó, misture-as com o sabão e o suco da maçã.

Em seguida, prepare uma pasta de água e de cinzas, pegue a erva-doce, ferva-a com a pasta e aqueça-a com a mistura quando coloca a pomada e antes e depois [também].
Cante esse encantamento três vezes em cada uma das ervas antes de prepará-las, e também na maçã. E cante o mesmo encantamento na boca do homem e em suas orelhas e na ferida, antes que você aplique a solução.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

GRENDON, Felix. The Anglo-Saxon Charms, pp. 190-195. New York, 1909 <https://archive.org/details/anglosaxoncharms00gren>;. Acesso em 06 de janeiro de 2018.

NOTAS:

[1] Mucgwyrt, em inglês antigo, identificada como mugwort ou artemísia, em português (Artemisia vulgaris).
[2] Wegbrade, em inglês antigo, identificada como plantain ou tanchagem, do gênero Plantago.
[3] Stune, em inglês antigo, identificada como Lamb’s cress (Cardamine hirsuta).
[4] Stiðe, em inglês antigo, identificada com Nettle (Urtica), ou urtiga.
[5] Literalmente “faça voar”.
[6] Nome de tradução incerta, sugere-se que seja a Fumaria officinalis l., Echinochloa crus-galli ou Stachys officinalis.
[7] O paciente.
[8] Mægðe, no original em inglês antigo, identificada como Mayweed (Matricaria), ou camomila.
[9] Wergulu, em inglês antigo, Crab-apple (gênero Malus) ou macieira.
[10] O nome original é “Fille”, em inglês antigo. O dicionário Bosworth-Toller apresenta como significado para essa erva “thyme”, a Thymus vulgaris, ou tomilho; todavia as duas traduções que usei como base identificam “fille” com chervil, Anthriscus cerefolium, conhecida em português como cerefólio.
[11] Finule, em inglês antigo, indicada como Fennel (Foeniculum vulgare), erva-doce ou funcho.
[12] Wihta, em inglês antigo. Denota uma classe de seres espirituais ou físicos, embora sobrenaturais. Eram essencialmente amorais.
[13] Veja a nota número 6.

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